Destino

Aquela vida agoniante estava me transformando num ser odioso, ja havia se tornado insuportável. Abrir os olhos na cama, e pegar um cigarro enquanto ouvia o som do ventilador só me fazia amaldiçoar o dia em que pisei nesse mundo sujo.

Eu já estava acostumado de que minha vida se resumia a escrever códigos de programas de computador, gerenciar bancos de dados, criar websites. Era o que eu sabia fazer desde pequeno e se tornou minha paixão. Era o combustível que me fazia viver.

Até o momento em que não era o suficiente.

Todos os que não compreendiam a minha sociopatia maldita, me julgavam, pensavam que eu era um doente, simplesmente porque eu nunca havia em algum momento da minha vida fétida, me relacionar. Eu nunca dei bola. “Eram pessoas fúteis”, eu pensava. Eu abri a mão de tudo que o outros tem, para me tornar o melhor no que eu fazia.

Até um ponto em que eu resolvi explorar novos horizontes. E simplesmente não dava certo. Em alguns momentos, eu conseguia acreditar que conseguiria me igualar aos outros que sempre me olharam torto, e então caia num penhasco feito da verdade. Eu nunca iria mudar. E a tristeza desse fato é tamanha que só tem um meio de esquecer tudo.

Nunca mais escreverei um código.

Sem Luzes

Havia acordado por conta do calor infernal.

O desespero e a agonia tomaram conta de mim quando me dei conta  que estava de olhos abertos e não enxergava nada. Aquele lugar era quente, mas por dentro eu estava congelado, era a pior sensação do mundo. Eu apalpava as paredes procurando uma porta ou uma janela, mas não havia nada. Eu estava preso em um lugar minúsculo e sem saída. Aquilo não tinha nexo…

Me sentei no chão e me apoiei na parede enquanto sentia o medo sumindo aos poucos. Eu não ouvia minha respiração. Bati palmas, chutei as paredes, tentava gritar, e nada. Eu já tinha perdido toda a esperança, foda-se o que for acontecer em seguida.

Coloquei a mão no chão e senti alguma coisa. Rapidamente peguei, e comecei a apalpar. Tinha um formato pequeno e familiar, muito familiar. As dimensões daquele objeto me deram certeza de que era um cigarro. Que sorte filha de uma puta…

Eu tinha certeza que eu não tinha um isqueiro comigo, eu estava nu. Arrastei as mãos no chão na esperança de achar qualquer coisa que pudesse acender o cigarro. Era a única felicidade que eu tinha em estar vivo, se é que podia ser chamado de felicidade.

Um grito rasgou o silêncio do lugar, era ensurdecedor. Nem na pior das torturas da minha mente eu conseguiria fazer alguém gritar daquela maneira. Eu nunca me senti daquele jeito, após poucos segundos algumas lágrimas começaram a escapar, eu não queria mais ouvir aquele berro de agonia. Tampei os ouvidos mas não adiantou, tentei gritar também, mas nenhum som saiu. Me joguei no chão chorando e gritando para que aquela alma maldita simplesmente ficasse quieta.

Uma luz surgiu, apontada para o lado oposto de onde eu me encontrava. Meus olhos demoraram para se acostumar com aquela claridade, e os gritos continuavam. Foi quando consegui ver nítidamente a fonte daquele urro grotesco. A visão me deixou chocado.

Eu era a fonte dessa dor.

Eu conseguia me ver com os braços e pernas acorrentados ao chão, completamente nú, e coberto com muito sangue. Gritando como se não houvesse amanhã. E não haveria.

Tempestade

Haviam pouquíssimas coisas que eu não odiava em estar vivo, e sentir a brisa que sopra antes da tempestade era uma delas.
Assim que eu olhava as folhas das árvores que ficavam no jardim do vizinho da frente, que sequer havia visto entrando ou saindo de sua casa, eu pegava meu companheiro Marlboro, uma lata de cerveja, e me sentava na sacada.

Era uma coisa perfeita, natural, limpa. Uma das únicas coisas que nossa raça nojenta e suja não podia pegar para si próprio.

O céu fechou, e eu só conseguia pensar “Finalmente”. O cigarro tocou meu lábios e eu não encontrava aquela porra de isqueiro, que inferno. Como eu poderia aproveitar a chuva sem fumar?

O meu quarto era quase comparável com um chiqueiro. Nunca recebia visitas, então não via um motivo para arrumar e limpar aquilo. Haviam roupas espalhadas, latas de cerveja, maços e bitucas de cigarro, camisinhas e quase todo tipo de lixo eletrônico existente. A minha única preocupação eram com baratas. Eu tinha um ódio mortal delas, principalmente quando voavam.

Abri a gaveta onde guardava as coisas inúteis e encontrei o isqueiro. Ao mesmo tempo em que encontrei uma carta com meu nome, sem um remetente. Eu não me lembrava de ter recebido sequer uma única carta nos meus 20 anos de vida. Gritei do meu quarto perguntando se alguém havia posto aquilo na gaveta. E ouvi minha mãe respondendo da cozinha:
-A Gisele veio hoje de manhã enquanto você dormia e pediu pra eu te entregar-

Senti aquela sensação estranha novamente. Desde que terminamos, sempre que eu ouvia o nome daquela vagabunda, eu sentia como se um animal gelado estivesse consumindo meu orgãos e se mexendo bruscamente dentro de mim. Não saberia descrever o que eu sentiria se a visse na minha frente.

Peguei o envelope e voltei para a sacada, sem abrir aquela bosta. Ficava tentando imaginar o que estaria ali dentro. Acendi um cigarro enquanto resmungava pela chuva não ter caído ainda. O céu já estava totalmente negro e ainda eram cinco da tarde.

No impulso, rasguei o envelope sem danificar o conteúdo, e finalmente me dei conta do que era. Era uma foto nossa, do dia em que começamos a namorar. Mais precisamente, o momento em que eu me ajoelhei e entreguei a aliança. Aquele sem dúvida foi o momento mais feliz da minha vida. No verso da foto estava uma frase escrita com a letra suave dela:
“Eu te amo, mas é impossível ficarmos juntos”.

Três lágrimas caíram sobre a foto. E com elas, veio a tempestade que eu tanto aguardava.

Azulejo Velho

Eu precisava fumar. Não queria sair para fumar e não podia fazê-lo dentro de casa,  meus pais me fariam comer o maço de cigarros. Peguei a garrafa de uísque que meu pai ganhou de presente da empresa em que trabalhava quando era mais novo, á uns 25 anos, e resolvi abrir.Uísque é para ser bebido e não para enfeitar a sala.
Fui até o banheiro dos fundos da casa. Se eu fumasse e bebesse a essa hora de madrugada, já estaria sóbrio e o cheiro do cigarro ja teria sumido do banheiro.Fechei a porta do banheiro e me sentei encostado na parede, enquanto observava o azulejo amarelado.Eu odiava aquela cor e resolvi apagar as luzes.A única luz que havia no banheiro enquanto eu sentia o primeiro gole quente do uísque era a da brasa do cigarro.O uísque era gostoso, apesar da garrafa feia e o nome estranho, não entendia o motivo do meu pai para não tê-lo aberto vários anos atrás. Aquele silêncio era muito bom, e eu conseguia ouvir os estalos do meu cigarro aceso.A madrugada era o único horário em que eu conseguia viajar nos meus pensamentos sem que alguém viesse incomodar.
Os acontecimentos dos últimos 3 meses ainda vinham em mente em certos momentos, e sempre que eles voltavam, a única solução era beber, caso contrário, uma pergunta maldita ficava martelando na minha cabeça.

Teria sido diferente se não tivesse feito aquilo?

Anne

A maldita estava lá no bar, recém terminamos o relacionamento de poucos meses, mas não importava, eu amava aquela puta. E lá estava ela, no bar, dando em cima de caras muito piores do que eu, me ignorando e fazendo comentários maliciosos. Eu queria matar todo sentados em volta daquela mesa.
Um amigo observava tudo da esquina, me chamou e me apresentou Anne.
Aquele perfume espetacular me conquistou em questão de poucos segundos. Era forte e suave ao mesmo tempo, me deixou em êxtase.
Passei mal. Senti uma vontade fascinante de vomitar,lavei o chão numa tacada só, levantei, e me senti renascido. Nunca tinha me sentido daquela maneira. Começamos a caminhar entre outras pessoas e eu me via caminhando entre elas, sem ter motivo para odiar ou amar aquela vagabunda que estragava minha noite, eu apenas vivia, e me sentia um deus olhando para aquilo tudo.  Me sentia com poder de parar uma guerra, me sentia com poder para disseminar uma praga.
Comecei a tocar meu corpo enquanto andava, não sentia nada, estava com o corpo completamente dormente, queria abrir meu peito com as mãos e tocar meus órgãos. Quase o fiz. Um pensamento rápido me fez perceber que não seria a melhor coisa fazer isso em meio a uma avenida cheia, num sábado á noite de temporada.
Me sentei enquanto meus companheiros conversavam.
Me levantei 15 segundos depois.
Repetí as duas ações mais umas quatro vezes.
Resolvi ir para casa dormir, mesmo sabendo que não ia conseguir. Maldita Anne, como podia ser tão fascinante? Sua beleza me fez perder uma noite de sono, enquanto eu me mexia frenéticamente embaixo do lençol, querendo dormir e não podendo.

Sem Nuvens

- Me espere aqui enquanto vou no mercado buscar algumas coisas, preciso de sua ajuda para empurrar o carro depois. – disse o pai.
Saíram juntos e fecharam a porta ao mesmo tempo, e abriu o maço de cigarro recém comprado no posto de gasolina. Ah, como era bom sentir a nicotina rasgando a garganta…
Me encostei no carro e comecei a observar tudo ao meu redor, em cada detalhe.
O céu não tinha nenhuma nuvem, e o vento levantava a poeira do estacionamento ao mesmo tempo em que jogava a fumaça do meu cigarro direto aos meus olhos. Merda.
Apenas olhava para o movimento em volta e pensava e desprezava. Uma moça estacionou o carro ao meu lado, era linda, parecia um anjo. “Essa puta deve ter dado muito pra conseguir um carro desses.” pensei, enquanto ela se dirigia ao mercado,  rebolando, e eu sem conseguir tirar os olhos de sua bunda.
Um grupo de estudantes passava por mim gargalhando, e eu não compreendia, como eles conseguiam rir? Eles não vêem que estão rodeados de bosta?
Puxei um segundo cigarro do maço.
Minha atenção se voltou para os empregados do mercado descarregando um caminhão, cansados e com cara de que preferiam não ter acordado hoje. Foi legal ver que eu não era o único a pensar do mesmo modo nesse lugar. O sol estava escaldante e irritante, e o movimento ao meu redor, entediante. Terminei o cigarro e me joguei dentro do carro com cheiro de mofo, eu gostava daquele cheiro. Depois de alguns minutos, o pai volta:
-Você devia ter ido me ajudar a trazer as compras.-
-Eu fiquei aqui porque você mandou.-

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