Tempestade

Haviam pouquíssimas coisas que eu não odiava em estar vivo, e sentir a brisa que sopra antes da tempestade era uma delas.
Assim que eu olhava as folhas das árvores que ficavam no jardim do vizinho da frente, que sequer havia visto entrando ou saindo de sua casa, eu pegava meu companheiro Marlboro, uma lata de cerveja, e me sentava na sacada.

Era uma coisa perfeita, natural, limpa. Uma das únicas coisas que nossa raça nojenta e suja não podia pegar para si próprio.

O céu fechou, e eu só conseguia pensar “Finalmente”. O cigarro tocou meu lábios e eu não encontrava aquela porra de isqueiro, que inferno. Como eu poderia aproveitar a chuva sem fumar?

O meu quarto era quase comparável com um chiqueiro. Nunca recebia visitas, então não via um motivo para arrumar e limpar aquilo. Haviam roupas espalhadas, latas de cerveja, maços e bitucas de cigarro, camisinhas e quase todo tipo de lixo eletrônico existente. A minha única preocupação eram com baratas. Eu tinha um ódio mortal delas, principalmente quando voavam.

Abri a gaveta onde guardava as coisas inúteis e encontrei o isqueiro. Ao mesmo tempo em que encontrei uma carta com meu nome, sem um remetente. Eu não me lembrava de ter recebido sequer uma única carta nos meus 20 anos de vida. Gritei do meu quarto perguntando se alguém havia posto aquilo na gaveta. E ouvi minha mãe respondendo da cozinha:
-A Gisele veio hoje de manhã enquanto você dormia e pediu pra eu te entregar-

Senti aquela sensação estranha novamente. Desde que terminamos, sempre que eu ouvia o nome daquela vagabunda, eu sentia como se um animal gelado estivesse consumindo meu orgãos e se mexendo bruscamente dentro de mim. Não saberia descrever o que eu sentiria se a visse na minha frente.

Peguei o envelope e voltei para a sacada, sem abrir aquela bosta. Ficava tentando imaginar o que estaria ali dentro. Acendi um cigarro enquanto resmungava pela chuva não ter caído ainda. O céu já estava totalmente negro e ainda eram cinco da tarde.

No impulso, rasguei o envelope sem danificar o conteúdo, e finalmente me dei conta do que era. Era uma foto nossa, do dia em que começamos a namorar. Mais precisamente, o momento em que eu me ajoelhei e entreguei a aliança. Aquele sem dúvida foi o momento mais feliz da minha vida. No verso da foto estava uma frase escrita com a letra suave dela:
“Eu te amo, mas é impossível ficarmos juntos”.

Três lágrimas caíram sobre a foto. E com elas, veio a tempestade que eu tanto aguardava.

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